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A PEDINTE

Uma história passada em Portugal


Autor
JORGE FRANCISCO MARTINS DE FREITAS

Situada no sopé da mais alta montanha da região, a velha urbe retoma, na primavera, a alva cor dos rigorosos invernos ao ser coberta por um vasto campo de amendoeiras em flor.

Uma casa em pedra, embora um pouco danificada, resiste, ainda hoje, à voragem do tempo.

Nos finais do século XIX, as paredes interiores daquele edifício, então situado nos arredores da vila, presenciaram o nascimento de Rita, única filha de Ana de Jesus, uma mulher ainda jovem que ali residia sozinha desde que os seus pais haviam falecido.

Quando a mãe de Rita apareceu grávida, começaram a apontar diversos homens da zona como eventuais pais da criança, não escapando às más-línguas o próprio padre. Ana de Jesus nunca se pronunciou sobre a identidade do progenitor de Rita e, enquanto foi viva, sempre se afastou das investidas amorosas a que era constantemente sujeita.

A muito custo, cria a sua filha até esta atingir 6 anos de idade, altura em que decide deixá-la na casa rural de D. Beatriz, uma fidalga da região que procurava uma criadita. Gostaria de ter continuado a cuidar dela, mas uma grave doença que a atormentava havia já alguns meses, dificultava muito essa tarefa.

Semanas mais tarde, a mãe de Rita morre e D. Beatriz fica a ser o único amparo da criança.

Na altura, longe das grandes cidades, poucos rapazes frequentavam a instrução primária e eram muito raras as raparigas que chegavam a entrar para a escola. D. Beatriz era uma exceção: sabia ler e escrever, pelo que decide ensinar à sua criadita as primeiras letras. Esta demonstra ser muito esperta, mas nem sempre a patroa tinha paciência para a instruir, preocupando-se mais em exigir dela a realização de todas as tarefas domésticas.

Decorrem nove anos. Rita é agora uma atraente jovem, detentora de longos cabelos castanhos que lhe caiem descuidadamente sobre os ombros, emoldurando um rosto cuja beleza chama a atenção de todos os que com ela se cruzam. Apesar de pouco letrada, sabe escrever o seu nome e fazer contas, contrariamente a muitas outras raparigas da região que eram completamente analfabetas.

Naquela manhã, a fidalga tinha-a mandado ir à mercearia local para comprar bacalhau, recomendando-lhe que pedisse o de boa qualidade.

É atendida pelo Zé, um jovem marçano da sua idade.

– O que quer desta vez a tua patroa?

– A D. Beatriz quer bacalhau, mas do bão!

– Do bão? - interroga o rapaz, com ar divertido – Aprende a falar! Não se diz do bão, mas sim do bom!

Chateada com a irreverência, Rita estava prestes a abandonar a mercearia sem levar a encomenda da patroa, quando é intercetada por Alberto, um jovem pedreiro da região.

– Não ligues ao que o Zé te diz. Ele tem a mania que fala melhor do que os outros porque fez a quarta classe.

Durante alguns minutos, ficam a falar animadamente à porta do estabelecimento, marcando um novo encontro.

Três meses mais tarde, casam-se, passando ambos a viver na abandonada casa da falecida mãe de Rita, entretanto recuperada com algumas obras de beneficiação realizadas pelo Alberto.

Os primeiros tempos de matrimónio decorrem plenos de felicidade. Têm um filho, a quem põem o nome de João, tratando-o com todo o esmero.

Dez anos mais tarde, Alberto, que até aí se havia comportado exemplarmente como chefe de família, começa a sair com amigos que o levam a gastar toda a sua semanada em patuscadas regadas com o bom vinho da região, aparecendo em casa constantemente embriagado.

Alberto consome praticamente sozinho o pouco pão que entra em casa e, por tudo e por nada, começa a bater na mulher e no filho, por estes reclamarem que têm fome.

Porém, quando à hora das refeições recebiam a visita de algum vizinho, Alberto escondia sempre a sua situação de miséria, dizendo para o filho:

– Queres mais pão, João?

– Mais um bocadinho – responde este, baixinho.

– O quê? – exclama o pai, franzindo as sobrancelhas ameaçadoramente.

– Não senhor – balbucia o João, com muito medo do pai.

– Assim é que m’há d’zer! – responde o progenitor, cuja bebedeira não lhe permitia articular devidamente as palavras.

E, mais uma vez, mãe e filho se deitam, alimentados apenas pelos frutos do pequeno pomar existente nas traseiras da casa e, raramente, pelos ovos das galinhas que, a muito custo, conseguiam criar. Por vezes, a Rita adquiria dois ou três quilos de arroz, trabalhando o dia inteiro para a sua antiga patroa, mas, mesmo assim, Alberto exigia que esta lhe entregasse o resto dinheiro que havia recebido, com o intuito de o gastar em bebida.

Havia já alguns anos que Portugal se encontrava envolvido na Primeira Grande Guerra e, como se este conflito não fosse suficiente para afligir a população, o país começa a ser atingido pela Gripe Espanhola, pandemia que haveria de dizimar milhões de seres humanos em todo o mundo.

Um dia, Alberto chega a casa muito doente. Ao fim de alguns dias morre, tornando-se mais uma das vítimas desta pandemia.

Rita fica completamente desemparada, com um filho para cuidar. Mais tarde, o João também é atingido pela Gripe Espanhola, acabando igualmente por falecer.

A sua antiga patroa, apesar de muito endinheirada, não sobrevive a este flagelo, o que leva Rita a tentar obter trabalho na casa de outras senhoras, mas os tempos estavam difíceis para todos.

Coberta por um desgastado xaile negro, começa a deslocar-se diariamente para o adro da Igreja, estendendo a mão à caridade pública.

Sempre lhe iam dando algumas esmolas, com parte das quais adquire géneros alimentícios para a sua sobrevivência.

Várias décadas se passam.

A antiga vila é agora uma cidade que se estende por muitas centenas de metros em redor do centro histórico, englobando, na sua área, a casa de Rita, velhota que se tornara, entretanto, numa figura popular. Apesar de estar prestes a atingir 70 anos de idade, continua diariamente a pedir esmola e sempre lhe vão dando algumas moedas.

O senhor Martins, gerente do mais antigo banco da região, tem, todos os dias, uma tarefa: contar os tostões que a pedinte lhe leva para depositar na conta que este lhe abrira havia trinta anos, quando ainda era um modesto empregado daquela instituição bancária. Essa tarefa já não deveria ser feita por ele, mas sim por um dos seus subordinados, mas a tia Rita - como é conhecida na região – insiste sempre em ser atendida por ele.

– Boa tarde, Tia Rita! Traz mais umas moedinhas para a sua conta, não é verdade?

– Trago sim, Senhor Martins – responde a idosa com um acentuado sorriso no rosto.

– Mais uma vez lhe digo que deve ter um segundo titular na sua conta, para, no caso de a senhora adoecer, essa pessoa poder levantar dinheiro para tratar de si!

– Está bem, Senhor Martins! Vou pensar nisso e depois digo alguma coisa!

Vários anos se passam. A tia Rita aparenta estar doente, mas continua a pedir esmola.

Em agosto de 1968, uma vizinha vê a tia Rita cambalear e cair junto à porta de entrada da sua ancestral residência.

Se estivesse disponível uma ambulância que a encaminhasse rapidamente para o Hospital da cidade, talvez esta pudesse ter sobrevivido mais alguns anos.

Infelizmente, a sua situação clínica era já muito grave quando deu entrada no hospital, tendo falecido no mesmo dia.

Apesar da sua popularidade, poucas pessoas estiveram presentes no seu modesto funeral.

Na semana seguinte, o Dr. Fonseca, Diretor do Hospital, recebe uma chamada do Senhor Martins:

– Lembra-se da tia Rita?

– Está a referir-se à tia Rita, a pedinte? - Questiona o médico.

– Sim – responde o gerente do banco – Agradeço que passe por cá. A tia Rita colocou o nome desse hospital como segundo titular da conta que aqui tinha. Só falta completar a documentação da vossa parte.

– Mas a senhora era tão pobre! – questiona o Dr. Fonseca.

– Tem toda a razão, mas, ao longo dos anos, conseguiu amealhar 100 contos!

– 100 contos? – exclama o clínico, espantado – Como foi possível com pequenas esmolas juntar tanto dinheiro?

Os 100 contos deixados ao Hospital pela tia Rita representam atualmente apenas cerca de 500 euros, mas, com essa verba, nos anos 60 do século passado, poder-se-ia comprar dois carros ligeiros ou, mais importante ainda, uma ambulância devidamente apetrechada.

Pouco tempo antes de morrer, a tia Rita havia seguido o conselho do Sr. Martins. Tinha deixado o seu dinheiro a quem poderia tratar dela: o hospital da região.

Todos os tostões que foram juntos, com muito sacrifício, pela Tia Rita, não ajudaram a prolongar-lhe a vida, mas serviram para adquirir uma ambulância que permitiu, nos anos seguintes, salvar muita gente, ao acudir, de imediato, aos sinistrados.

© Jorge Francisco Martins de Freitas, 26-05-2021.
Proibida a reprodução sem autorização prévia do autor.

ENTRE PARAGENS

Esta narrativa inédita de Jorge Francisco Martins de Freitas faz parte de um conjunto de contos intitulado ENTRE PARAGENS, do mesmo autor, que vem sendo disponibilizado gratuitamente no Magazine cultural sem fins lucrativos O Leme.

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