Início Contos

LITERATURA
contos



O ENGENHEIRO E A FADISTA
fado = fatalidade, destino


Autor
JORGE FRANCISCO MARTINS DE FREITAS

Naquela manhã de finais da década de 1950, Lisboa acordava acariciada pela amena claridade dos primeiros raios de sol.

O engenheiro Rogério Manuel de Albuquerque havia chegado, há poucos minutos, ao Campo Pequeno, local onde, três vezes por semana, procedia ao exame dos candidatos à obtenção de carta de condução.

Era um jovem de estatura alta, detentor de faces morenas coroadas por serenos olhos castanho-escuros e cabelo da mesma cor, sempre cuidadosamente penteado. Trajava habitualmente um fato cinzento-escuro suavizado por riscas mais claras, sob o qual sobressaía uma imaculada camisa branca cujo colarinho, impecavelmente engomado, emoldurava uma gravata preta graciosamente descaída sobre o peito.

Fora sempre muito pretendido pelas raparigas, impressionadas com o seu aspeto físico, que, segundo elas, se assemelhava a um afamado ator de Hollywood.

O pai, um modesto pedreiro, conseguira reunir outros profissionais, criando uma pequena firma de empreiteiros que proporcionava à sua família uma vida relativamente desafogada. Sempre havia desejado que o filho viesse a ser engenheiro, incentivando-o a aplicar-se nos estudos. Rogério correspondeu à vontade do seu progenitor, tendo sido um aluno exemplar.

Tinha-se formado havia dois meses e este era ainda o único emprego que conseguira arranjar, embora já tivesse quase como certa a entrada para os quadros de uma conhecida empresa de construção civil.

Após ter avaliado o primeiro candidato à obtenção da carta de condução, o jovem engenheiro solicita a Artur Miranda, o examinando seguinte, que tome conta do volante.

Começa por lhe mostrar gravuras de alguns sinais de trânsito, perguntando o significado de cada um deles, tarefa que este realiza com exatidão. Depois, pede-lhe para por o carro a trabalhar, seguindo sempre em frente. Assim que chegam a um cruzamento, Artur Miranda, diz-lhe:

— Senhor Engenheiro, olhe aí pela direita, que eu cuido aqui da esquerda!

Espantado com este pedido, o engenheiro Rogério exclama:

— Então, se o senhor estivesse sozinho no carro, quem cuidava da direita?!

O examinando fica atrapalhado com a pergunta, mas nem sequer tem tempo de responder porque é solicitado a parar imediatamente o carro.

— Então, o meu exame já terminou?

— Terminou, sim!

— Fiquei bem, senhor engenheiro?

— Ainda pergunta?

De regresso ao local de partida, Leonor, a irmã de Artur Miranda, dirige-se ao examinador, com um largo sorriso no rosto, questionando-o:

— Senhor engenheiro: o meu irmão Artur passou?

Rogério olha fixamente para ela. Já havia conhecido jovens formosas, mas Leonor ultrapassava em muito o conceito de beleza a que estava habituado. Uns sedosos cabelos castanhos, com matizes claras, caíam-lhe harmoniosamente sobre os ombros. O seu rosado rosto parecia ter sido decalcado das angélicas figuras femininas que tanto o haviam impressionado quando visitara o Museu de Arte Antiga. Ostentava uns olhos claros, cujo brilho se assemelhava ao esplendor de duas luminosas estrelas. O seu corpo, de uma encantadora fragilidade, parecia ter saído da prancha de um exímio estilista de moda, apresentando-se coberto por um vestido vermelho que aparentava esvoaçar sustentado por uns elegantes sapatos de salto alto da mesma cor.

— Senhor engenheiro: o meu irmão Artur passou? – volta a perguntar Leonor.

Rogério, fascinado com a deslumbrante figura de Leonor Miranda, gostaria de lhe dizer que o irmão havia obtido a carta de condução, mas vê-se coagido a responder:

— Infelizmente, não!

Leonor fica desiludida, mas, perante a atraente figura do examinador, não resiste a retorquir:

— É pena, senhor Engenheiro! De qualquer maneira, gostaria de convidá-lo a ir esta noite ao Retiro da Boa Pinga, o restaurante do meu pai onde eu atuo como fadista. Fica no Bairro Alto.

Rogério considerou que aceitar um convite formulado por familiares de um seu examinando seria impróprio, mas, deslumbrado com a beleza de Leonor, sente-se incapaz de recusar.

Naquela noite, ainda um pouco apreensivo com a decisão que havia tomado, entra no restaurante do pai de Leonor, àquela hora já transformado numa típica casa de fados. A filha do proprietário havia reservado para ele uma mesa, junto ao canto da sala onde os artistas se exibiam, recebendo-o pessoalmente envolta num rendilhado xaile que a tornava ainda mais sedutora.

Apenas metade das quinze mesas, cobertas por toalhas axadrezadas, se encontrava preenchida com apreciadores do fado. A um canto, uma lareira aquecia o ambiente, projetando agitadas sombras nas cálidas paredes da sala, cobertas por coloridas louças regionais, velhas guitarras e ornados xailes.

Leonor foi a primeira a atuar. A linha melódica da sua voz sobressaia entre os acordes da viola e da guitarra dos acompanhantes musicais. Rogério teve a sensação de que os olhos penetrantes da fadista se fixavam na sua direção, enquanto esta interpretava, com emoção, o fado A Rosa Enjeitada.

Finda a sua atuação, a sala enche-se de palmas, acompanhadas de expressões de incentivo.

Leonor senta-se na mesa ocupada por Rogério, roçando suavemente o seu delicado braço no dele, ao mesmo tempo que olha para a sua charmosa figura, não conseguindo esconder o quanto ficara impressionada com o atraente aspeto físico que este ostentava. Já tivera inúmeros namorados e admiradores, mas nenhum deles a cativara tanto como este jovem engenheiro.

Entre ambos surge, de imediato, uma profunda ligação afetiva, combinando encontrar-se, no dia seguinte, num jardim da cidade.

Naquela noite, Rogério tem dificuldade em adormecer. Nunca se sentira tão intensamente envolvido por alguém.

No dia seguinte, assim que se encontram, Leonor toma a iniciativa de o beijar, deixando que as madeixas do seu atraente cabelo envolvessem, com suavidade, o pescoço do jovem engenheiro.

Sentam-se num banco meio escondido, sob uma frondosa árvore. Rogério deixa descair a sua mão direita sobre o peito de Leonor – o maior avanço que até à data tivera com uma rapariga. Esta limita-se a sorrir e, chegando-se ainda mais para ele, diz-lhe baixinho ao ouvido:

— Meu Amor! Vamos para um sítio mais discreto!

Rogério fica embaraçado. Até então, nenhuma das suas anteriores namoradas se atrevera a fazer idêntico pedido, mas rapidamente se recompõe, perguntando:

— Mais discreto? Para onde?

— Para minha casa!

— Para tua casa? Tu não vives com os teus pais?

— Não, meu amor! Já estive para casar e o meu noivo e eu pusemos uma casa. Desentendemo-nos, mas eu continuei a pagar a renda e durmo lá muitas vezes!

Rogério nunca conhecera uma rapariga que tivesse um apartamento próprio e jamais a imaginara vivendo sozinha! Sentindo um intenso ardor envolvendo o corpo, pega ternamente na mão de Leonor, conduzindo-a até ao carro que deixara junto ao jardim.

Meia hora mais tarde, chegam à residência de Leonor, situada numa localidade nos arredores da cidade. Assim que passam a porta de entrada, lançam-se nos braços um do outro. Pela primeira vez na vida, Rogério sente no seu corpo toda a intimidade de uma mulher. Sempre imaginara que essa sensação apenas a teria após o casamento, mas ali estava ele intimamente ligado a uma pessoa que conhecera no dia anterior!

Enlaçados com ternura, sorriem um para o outro, enquanto o dia declinava, enchendo de sombras o quarto. Só agora reparava na modesta decoração que envolvia a cama, mas isso pouco lhe importava, pois o seu olhar não conseguia afastar-se dos fascinantes olhos de Leonor.

— Temos de ir Rogério!

— Para onde?

— Para o restaurante do meu pai! Estão à minha espera para me ouvirem cantar o fado!

Pela primeira vez na vida, sofre uma sensação de perda! Gostaria de ter ficado ali toda a noite!

Rogério acompanha Leonor até à Casa de Fados, deixando-se encantar, durante quatro horas, com a sua melodiosa voz.

De madrugada, regressam ambos a casa de Leonor.

Dias mais tarde, Rogério começa a trabalhar como engenheiro na empresa de construção civil.

A sua situação financeira iria melhorar substancialmente, pelo que resolve pedir ao pai de Leonor a mão da filha. Este aceita de bom grado este enlace, pois ela já tivera uma experiência amorosa que não acabara bem e o futuro genro, para além de ser uma pessoa educada, era detentor de um curso com grande relevância social.

Na semana seguinte, Rogério, acompanhado de Leonor, regressa a casa dos seus pais, onde sempre vivera. Isabel, a sua mãe, uma modesta senhora que dedicara toda a sua vida de casada a cuidar do marido e do filho, recebe carinhosamente a futura nora, elogiando a sua beleza.

Só passadas duas horas, Raul Albuquerque, o pai do Rogério, chega a casa, vindo do trabalho. O filho, apresenta-lhe Leonor, declarando ser esta a mulher com quem desejava casar.

— Como conheceu o meu filho?

— Conhecemo-nos quando o meu irmão foi fazer o exame de condução. O seu filho é que o examinou.

— E o que faz a menina?

— Eu sou fadista!

Raul sempre desejara que o filho se cassasse com uma senhora recatada, de boas famílias, que ficasse em casa cuidando do lar, tal como toda a vida fizera a mãe de Rogério. Ter uma cantadeira de fados como nora não estava nos seus planos, pelo que a começou a tratar com alguma frieza.

Leonor rapidamente se apercebeu que não caíra nas boas graças do futuro sogro, mas evitou eventuais conflitos entre pai e filho, declarando que teria de se retirar para ir trabalhar e, voltando-se para o seu futuro marido, diz-lhe:

— Rogério, fica mais algum tempo com os teus pais. Encontramo-nos mais tarde.

Assim que Leonor saiu, o pai de Rogério dirige-se ameaçadoramente ao filho:

— Onde tens a cabeça? Queres casar com a desavergonhada de uma fadista que trabalha à noite num cabaré?

— Ela não trabalha num cabaré. A casa de fados onde ela canta pertence ao pai dela!

— Não a tragas mais à nossa casa!

— Mas, pai, nós gostamos muito um do outro!

— Se te casares com ela, escusas de aparecer mais à minha frente!

A mãe de Rogério agarra-se ao filho chorando.

— Raul, deixa o teu filho casar-se com ela. Os tempos agora são outros. Tu ainda tens velhos preconceitos contra as mulheres que trabalham fora de casa, especialmente à noite!

Rogério decide ir-se embora, para não alimentar mais discussões entre os seus progenitores.

Naquela noite, fica acordado até às três da manhã, aguardando o regresso de Leonor. Assim que esta entra em casa, ambos decidem que, perante a oposição do pai de Rogério a este enlace, um casamento na Igreja, com muitos convidados, estaria fora de causa, optando, em sua substituição, por uma cerimónia no registo civil, com um reduzido número de participantes.

Passados três meses, casam-se numa radiosa manhã, com a presença de apenas 35 pessoas. O copo-de-água realiza-se no Retiro da Boa Pinga, devidamente engalanado para o efeito. Rogério gostaria de ter tido a presença de sua mãe na cerimónia, mas o pai exigiu que esta permanecesse em casa.

Na manhã do dia seguinte, viajam, de avião, para o Algarve. Era a primeira vez que ambos voavam. Ao passar por cima do rio Tejo, o avião apanha um poço de ar, descendo, num ápice, algumas dezenas de metros. Ambos se agarram instintivamente, julgando ter chegado o seu fim. Mas não, o avião continua o seu percurso, a baixa altitude, sobrevoando a Península de Setúbal e, mais tarde, o relevo alentejano, até ultrapassar a serra do Caldeirão.

Dos maravilhosos dias de permanência no Algarve, trouxeram um colorido prato regional que passou a ornamentar uma das paredes do Retiro da Boa Pinga.

Os dias foram decorrendo com a continuada harmonia entre os dois, embora Rogério sentisse uma profunda mágoa pelo pouco tempo que ambos passavam juntos: quando regressava do trabalho, já Leonor tinha saído para atuar no restaurante do pai e, quando esta regressava, a altas horas da madrugada, estava este prestes a levantar-se para ir para o estaleiro da obra de construção civil que dirigia.

Rogério sempre ambicionara ter filhos, mas Leonor não se mostrava muito propensa a dar-lhe descendência, pois considerava que a vida que levava não lhe permitia cuidar devidamente de uma criança.

— Porque não deixas de ser fadista e ficas em casa a cuidar dos nossos filhos? – pergunta-lhe Rogério, um pouco receoso da resposta que ela lhe daria.

— Nem penses nisso! Eu nasci para ser fadista e não para desempenhar o papel de mãe. Onde vou arranjar tempo para cuidar de uma ou mais crianças?

— Mas era bom para nós: eu já ganho o suficiente para termos uma vida satisfatória e estaríamos mais tempo juntos – responde timidamente o engenheiro, temendo ferir a sensibilidade artística da esposa.

— Gostavas que eu te pedisse para abandonares o teu trabalho, ficando em casa a tratar dos nossos filhos?

Rogério sente uma profunda mágoa no coração. Considera que Leonor tinha razão, mas limita-se a ficar calado, não extravasando mais o desgosto que o atormentava. Afinal, quando se casara com ela, já sabia quanto esta gostava de ser fadista e como lhe era impensável viver sem o aplauso dos seus admiradores.

O seu pai talvez tivesse um pouco de razão quando havia afirmado que ela não era a mulher ideal para ele, mas o amor que nutria por Leonor suplantava todos os obstáculos que vinham surgindo no relacionamento entre ambos.

Como não queria dar o braço a torcer perante o pai, decide abandonar a ideia de vir a ter um filho.

Sempre que Rogério acompanhava a esposa até à casa de fados, sentia-se profundamente incomodado com os galanteios que alguns assíduos clientes lhe dirigiam.

Leonor chega a casa cada vez mais tarde, alegando o extremo movimento da casa de fados. Os ciúmes começam a atingir Rogério, embora aparentemente nenhum indício parecesse indicar que ele tinha motivos para ficar preocupado.

Decorrem três anos. O amor entre ambos já esmorecera um pouco, surgindo, com frequência, algumas discussões, quase todas iniciadas pelo facto de Rogério lamentar o pouco tempo que passava com a esposa.

Uma noite, Leonor não regressa a casa. No dia seguinte, à hora do almoço, Rogério dirige-se ao restaurante do sogro, recebendo deste uma triste notícia:

—A minha filha perdeu completamente o juízo! Fugiu para parte incerta com Alfredo, o nosso guitarrista!

Rogério regressa a casa, profundamente abalado. A sua Leonor, que tanto amava, trocara-o por com um jovem intérprete musical, deixando-o abandonado.

Incapaz de suportar sozinho a frustração que sentia pelo abandono a que fora vetado, convida Luís, um velho amigo de infância, a acompanhá-lo até um bar onde, no passado, costumavam ir com frequência. O amigo tenta animá-lo, não deixando de lhe dizer que receava este desfecho, pois ela, para além da sua independência, era uma rapariga muito atraente, sujeita às investidas de qualquer homem.

Rogério refugia-se em casa, tendo mais tarde tomado conhecimento que a sua esposa e o guitarrista estavam a atuar juntos numa casa de Fados, na cidade do Porto.

Dois longos invernos decorrem. Um dia, ao cair da noite, sente que alguém estava rodando uma chave na porta de sua casa. Dirige-se, de imediato, ao Hall de entrada e, para seu grande espanto, surge-lhe Leonor.

— Rogério, meu amor! Eu estou de volta!

Um primeiro impulso leva-o a fechar-lhe a porta na cara. Porém, olha melhor para ela: apresentava-se pálida, com o rosto degastado por um aparente sofrimento.

O amor que sempre lhe dedicara e nunca deixara esmorecer ao longo do tempo em que ficara sozinho, falou mais alto no seu coração, acabando por a receber. Entrelaçam-se amorosamente, como se a separação nunca tivesse acontecido.

Leonor volta a atuar no restaurante do pai e, aparentemente, a sofrida vida que ambos levavam parecia ter regressado ao normal.

Rogério encontra-se de novo com o seu velho amigo Luís, que fica muito admirado com o regresso de Leonor.

— Então tu recebes em casa uma mulher que te abandonou?

— O que é que tu queres? – confidencia Rogério – Ela é bonita e se os outros homens gostam dela, muito mais gosto eu, que sou o seu marido!

O relacionamento entre ambos retoma o seu curso normal, embora Rogério ficasse sempre apreensivo quando a esposa retardava o regresso a casa.

Três anos se passam. O restaurante do pai de Leonor é agora reconhecido como uma das mais afamadas casas de Fado da cidade de Lisboa. Consagrados artistas ali atuam, incluindo um jovem fadista que iniciara a sua carreira artística em Toronto.

A FATALIDADE bate novamente à porta de Rogério: Leonor abandona mais uma vez o marido, fugindo para Toronto com o fadista que atuava no Retiro da Boa Pinga.

Rogério fica completamente destroçado. O seu pai, que já falecera, tinha razão quando afirmava que ela não era mulher para ele!

Desiludido, ainda espera por Leonor durante alguns anos, sempre na esperança de a ver regressar. Apesar de continuar a amá-la intensamente, toma finalmente a decisão de pedir o divórcio e arranjar uma nova esposa que lhe desse maior estabilidade emocional.

A sua escolha recai sobre Filomena, uma professora da instrução primária, em termos de beleza muito discreta, mas possuidora de uma inexcedível benevolência e vontade de agradar ao futuro marido.

Rogério só consegue obter o divórcio de Leonor ao fim de muitos meses, pois esta, aparentemente, parecia não estar muito interessada em assinar os papéis, tendo até escrito uma carta no sentido de voltarem a viver juntos.

Acompanhado da sua nova esposa, o engenheiro passa a residir no Estoril, numa luxuosa moradia. Filomena abandona a sua vida de professora para se dedicar inteiramente ao marido, tendo-lhe dado três filhos: duas meninas e um rapaz.

Rogério nunca conseguiu sentir por Filomena o mesmo amor que continuava a ter por Leonor, embora procurasse tratar a atual esposa com todo o carinho.

Passam várias décadas.

Rogério enviuvara havia alguns meses. Rodeado pelos seus filhos, genros, nora e netos comemora a passagem do seu octogésimo aniversário. Depois da festa, a sua descendência vai, aos poucos, abandonando a casa onde este insistia em viver sozinho, já que a sua razoável saúde tal lhe permitia, sendo unicamente apoiado por uma empregada que tratava de todas as tarefas domésticas.

Nunca mais entrara numa casa de fados, mas, naquele dia, decidira reservar uma mesa no restaurante que outrora pertencera ao pai de Leonor e que agora tinha uma nova gerência.

Chama um táxi que o deixa no Bairro Alto, em frente da velha casa de fados, que ostenta, já há alguns anos, um outro sugestivo nome.

Assim que acede ao interior do estabelecimento, experimenta uma estranha sensação. Apesar da remodelação ali realizada ter retirado alguns dos anteriores elementos decorativos, sente que o espaço ainda se mantém idêntico àquilo que era no passado, contribuindo para que tenha a impressão de ter voltado muitos anos para trás no tempo. A sua atenção recai de imediato sobre o prato regional que ele e Leonor tinham comprado no Algarve, agora estrategicamente colocado por cima da velha lareira.

A sala parecia maior – talvez tivessem roubado algum espaço à cozinha – mas continuava a ter 15 mesas, a maioria delas repleta de turistas estrangeiros.

O lugar que lhe haviam reservado situava-se sensivelmente no mesmo local onde outrora ouvira pela primeira vez Leonor a cantar, mesmo em frente ao espaço onde os fadistas atuavam.

A sala apresentava-se meio obscurecida, apenas iluminada pela trémula luz das velas colocadas sobre as mesas.

O novo dono do estabelecimento pede que se faça silêncio. Após pronunciar algumas palavras em inglês, dirige-se ao reduzido número de portugueses ali presentes:

— Hoje temos a presença de uma pessoa que já deixou, há alguns anos, a vida profissional de fadista, a quem pedimos o especial favor de esta noite nos voltar a encantar com a sua voz. Viveu muitos anos em Toronto, onde se casou. Depois de ter enviuvado, voltou, há uma semana, para Lisboa, terra que a viu nascer. Ela só aceitou o nosso convite porque foi precisamente neste restaurante que iniciou, há 65 anos, a sua carreira. Senhoras e senhores: Leonor Miranda!

Da penumbra de um canto da sala, emerge a figura de uma fadista, envolta num vistoso xaile negro, apresentando um aspeto ainda muito atraente, não obstante as suas faces ostentarem já algumas rugas próprias da idade.

Rogério sente o seu coração bater intensamente. Nunca esperara, ao voltar àquele lugar, ver de novo a sua antiga mulher. As lágrimas escorrem-lhe pelo rosto, marcado por muitas desilusões amorosas.

Após uns breves acordes dos guitarristas, quando Leonor ia começar a cantar, a sua vista recai sobre Rogério. Apesar de este se apresentar envelhecido, reconhece-o de imediato. A sua voz emudece, incapaz de emitir um único som. As lágrimas começam igualmente a rolar pelas suas faces. Dá um passo na direção de Rogério. Este já se levantara da mesa, indo ao seu encontro.

Após tantos anos, o DESTINO voltara a juntá-los, agora até ao fim das suas vidas!



© Jorge Francisco Martins de Freitas, 16-09-2021.
Proibida a reprodução sem autorização prévia do autor.



ENTRE PARAGENS

Esta narrativa inédita de Jorge Francisco Martins de Freitas faz parte de um conjunto de contos intitulado ENTRE PARAGENS, do mesmo autor, que vem sendo disponibilizado gratuitamente no Magazine cultural sem fins lucrativos O Leme.

Clique na imagem a seguir inserida, para ler os contos já publicados.


TOPO