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O RAPAZ QUE QUERIA SER
POLÍCIA-SINALEIRO

Uma história passada em Portugal na década de 1960

Autor
JORGE FRANCISCO MARTINS DE FREITAS

Mais uma vez, Tó Zé senta-se nos desgastados degraus da porta de um velho pardieiro situado junto à entrada da vila, para observar o polícia-sinaleiro que, pacientemente, orienta, com recurso a sinais feitos com as mãos e os braços, o trânsito vindo do Norte, em direção ao Algarve.

Naquele tempo, o número de semáforos existentes era diminuto e ainda não havia as autoestradas e vias rápidas através das quais podemos hoje circular por todo o País sem ter de atravessar as localidades, pelo que a função de polícia-sinaleiro era vista como absolutamente necessária, sendo acatada com respeito tanto por automobilistas como por peões.

Tó Zé era um jovem de estatura alta e largos ombros sobre os quais a sua cabeça parecia baloiçar, envolta em descuidados caracóis que lhe cobriam uma desmedida testa.

Vivia com os pais e dois irmãos numa humilde casa rural, perto da vila.

Desde tenra idade, os pais e familiares mais próximos haviam constatado que Tó Zé não se comportava como a maioria das outras crianças: era muito tímido, refugiando-se num mundo à parte. O seu espírito alheava-se da realidade, preferindo focar todos os seus sentidos num mundo imaginário por ele construído.

Na escola, os colegas riam-se dele, pois, sempre que a professora o queria interrogar, via-se obrigada a chamá-lo duas ou três vezes até ele prestar atenção, aplicando-lhe, de seguida, meia dúzia de reguadas. No entanto, nos breves momentos em que conseguia estar atento, lá ia aprendendo qualquer coisa, tendo concluído a terceira classe.

Pouco depois de ter feito nove anos de idade, o pai, um homem iletrado, mas possuidor de uma enorme vontade de trabalhar para dar à sua família o bem-estar que esta merecia, é atingido por um automóvel desgovernado, vindo a falecer a caminho do hospital.

Luísa, a mãe de Tó Zé, apesar de já ter tido três filhos, era uma mulher ainda jovem, a quem a natureza proporcionara um rosto angelical encimado por sedosos cabelos castanhos que, à luz do sol, apresentavam matizes douradas que ela recatadamente encobria com um descolorido lenço que já pertencera à sua falecida avó. Apesar de, fruto de uma esmerada educação religiosa, se esforçar por resguardar a sua beleza, não conseguia evitar os olhares provocadores que os homens da vizinhava lhe lançavam, não obstante a sua pele, observada mais de perto, se apresentar suavemente marcada pela dureza da labuta diária do campo.

Para sobreviver, Luísa passa a deslocar-se diariamente a um tanque municipal, onde tenta obter mais algum rendimento, lavando a roupa de senhoras abastadas.

Infelizmente, o dinheiro que ganhava com o seu árduo trabalho era insuficiente para alimentar a família, pelo que se vê obrigada a tirar da escola o Tó Zé, seu filho mais velho, empregando-o, apesar da sua tenra idade, como moço de recados na Mercantil, a loja mais importante da vila.

O patrão incumbia-o de fazer entregas na casa dos clientes, mas este, mal saía à rua, distraía-se de tal modo que já não se lembrava exatamente da pessoa a quem se destinava o pacote que transportava, sendo obrigado a voltar à loja para obter essa informação e, por vezes, deixava a encomenda esquecida junto a um ponto qualquer do percurso.

Inicialmente, o patrão perdoa-lhe, porque, tal como a maioria dos homens da região, se deixara encantar pela beleza da mãe deste, não escondendo a sua vontade de conseguir um contacto mais íntimo com a viúva. Porém, Tó Zé continuava a trabalhar deficientemente e a sua progenitora não mostrava grande interesse em encetar um relacionamento com um homem casado. Despeitado, o dono da Mercantil despede o seu jovem marçano.

Desesperada, Luísa fala com todos os conhecimentos que fizera na sua qualidade de lavadeira da vila, acabando por conseguir outro emprego para o filho, desta vez ao balcão de uma sapataria. Este, porém, continua sempre a ostentar um completo alheamento das tarefas que lhe eram exigidas.

Decorrem cinco longos anos, durante os quais passa por diversos trabalhos, acabando sempre por ser dispensado.

Tó Zé é agora um jovem de 15 anos. Todos na vila o consideram tolo, servindo de chacota aos outros rapazes, mas não à maioria das raparigas que se deleita com o seu atraente aspeto.

- Dizem que o meu Tó é parvo! Não, ele parvo, parvo, não é; pois sabe ler, escrever, ver as horas e já trabalhou para alguns patrões – declara a sua mãe quando questionada sobre o filho. Depois, cai um pouco em si, acabando por rematar:

- Ah! Mas sempre é parvo!

Tó Zé trabalha agora ao balcão da Papelaria Zénite. Lucrécia, a dona deste estabelecimento comercial, mostra-se satisfeita por o ter contratado, não tanto pela eficiência do seu trabalho que apresenta muitas lacunas, mas pelo aumento significativo de clientela do sexo feminino que ali começara a acorrer. Muitas raparigas, alunas do colégio local, em vez de comprarem livros e cadernos na outra papelaria junto àquele estabelecimento de ensino, preferem deslocar-se à Papelaria Zénite para o mesmo efeito, tudo para ver Tó Zé que sempre lhes dispensava um largo sorriso.

Helena, filha do maior fazendeiro da região, era das que mais ocorria à papelaria da dona Lucrécia. Entre ela e o Tó começam a ser trocados sinais que indiciam uma aproximação amorosa.

Em breve, combinam encontros fora da papelaria. Tó Zé parece completamente transfigurado quando está na presença de Helena: ouve-a com muita atenção, enquanto passa suavemente as mãos pelo seu sedoso cabelo.

Muitos rapazes da vila ambicionavam namorar a Helena, não apenas pela sua beleza, mas sobretudo por ser “um bom partido”, pelo que, despeitados, começam a dizer em voz alta, sempre que esta passa perto deles, frases pouco abonatórias em relação ao Tó Zé:

- Olha a Helena, a namorada do parvo!

Aparentemente, este namoro estava a contribuir para uma mudança profunda em relação ao alheamento com que até aí pautara sua vida. Porém, era difícil esquecer o seu sonho mais profundo, pelo que, mais uma vez, fica a observar o polícia-sinaleiro desempenhando o seu trabalho à entrada da vila.

Alguns rapazes resolvem pregar uma partida ao Zé. Vão ter com ele e perguntam-lhe:

- Se gostas tanto de ser polícia sinaleiro porque não o fazes? A partir das vinte horas, o guarda que costuma estar à entrada da vila vai-se embora e só regressa no dia seguinte, pela manhã. Tens toda a noite à tua disposição para seres polícia-sinaleiro!

Como teria dito a sua mãe, ele parvo, parvo, não era, mas achou essa ideia excelente, acabando por retorquir:

- E onde vou arranjar a farda de polícia-sinaleiro?

- Não te preocupes com isso – respondem os outros, mantendo, com dificuldade, um ar sério - nós vamos tratar disso.

Ao anoitecer do dia seguinte, os falsos amigos entregam-lhe roupas idênticas à dos polícias assim como botas pretas altas, um velho capacete colonial e algo parecido com um bastão.

Assim apetrechado, mal o verdadeiro polícia-sinaleiro abandona o local, sobe para o palanque e começa a dirigir o reduzido trânsito noturno, observando, com um largo sorriso no rosto, que é devidamente obedecido pelos automobilistas. O seu pensamento já não vagueia, pois se encontra plenamente concentrado na atividade que está a realizar.

A um canto, rapazes e alguns adultos convidados para assistir a este “evento”, não conseguem conter o riso, não obstante Tó Zé estar a executar a tarefa com impecável eficiência.

Às 11 da noite, um verdadeiro polícia passa no local e pergunta ao Tó Zé:

- Que estás aí a fazer?

- Estou a controlar o trânsito. Sou polícia-sinaleiro! – responde este, muito sorridente.

- Ai és? Então vem comigo para a esquadra para aprenderes melhor a tua profissão!

E, perante o gáudio de todos os presentes, Tó Zé é conduzido à prisão.

No dia seguinte, o chefe da esquadra, conhecedor da fama de tolo que desde criança atribuíam ao Tó Zé, decide libertá-lo, dizendo:

- Se voltas a fazer de polícia-sinaleiro, temos o caldo entornado!

- Prometo que não volto, senhor guarda!

- Está bem, mas ouve lá, disseram-me que tu tens muito jeito para isso. Porque não concorres para polícia-sinaleiro?

- Só tenho a terceira classe, senhor guarda!

- Então estuda, apanha juízo e depois logo se vê. Talvez eu dê um empurrãozinho… - afirma o chefe da esquadra, mais por ter pena do rapaz que por convicção.

De volta a casa, a sua mãe agarra-se a ele muito chorosa. Sentia-se envergonhada, pois toda a vila já troçava da sua aventura como polícia-sinaleiro.

No dia seguinte, Tó Zé aguarda longo tempo à entrada da papelaria pela chegada de Helena, mas esta nunca mais apareceu, pois ficara muito transtornada com a “idiotice” que este havia feito.

O tempo continua a prosseguir o seu imparável caminho. Tó Zé tem agora 19 anos. Apresenta-se mais astuto, mas não consegue libertar-se da fama de tolo que desde sempre lhe atribuíram.

A “sua” Helena, entretanto, já se havia consorciado com um jovem médico que, ao vir trabalhar para uma clínica na vila, havia perguntado qual era a rapariga mais rica da região, para com ela se casar. O pai apressou-se a consentir este enlace não só por o seu futuro genro ter uma posição social elevada como igualmente com o intuito de dissipar a má fama que a sua filha tinha adquirido ao namoriscar um rapaz considerado parvo.

Como todos os jovens da sua idade, é chamado para o serviço militar e destacado para combater numa das então denominadas Províncias Ultramarinas.

Consegue fazer a quarta classe numa escola regimental, tendo, mais tarde, sido nomeado impedido de um oficial superior.

Regressa a Lisboa em 1967, a bordo de um navio de transporte de tropas. A mãe e irmãos estavam à sua espera no Cais da Rocha de Conde d’Óbidos.

Tiveram dificuldade em o reconhecer, pois se havia transformado num garboso rapaz.

Assim que começaram a falar com ele, notaram, de imediato, que apresentava um discurso coerente, sem quaisquer vestígios de tolice. A tropa fizera-lhe muito bem!

A mãe pretendia levar o Tó Zé para a sua terra, mas este decide permanecer em Lisboa, pois o oficial superior de quem tinha sido impedido, conhecedor da vontade que este demonstrava de vir a ser polícia-sinaleiro, metera “uma cunha” para ele entrar para a Polícia de Viação e Trânsito.

Mais dois anos se passam. É véspera de Natal. Tó Zé é agora o respeitado polícia António José, recém-casado com Anabela, uma formosa lisboeta nascida em Alfama.

A sua mãe vem passar a consoada com eles. Gostaria de ter ido esperá-la, mas, nesse dia, está escalado para trabalhar, pelo que entrega essa tarefa ao Francisco, seu irmão mais novo, que passara a viver com eles a fim de continuar os estudos num liceu de Lisboa.

Assim que sua mãe desembarca, Francisco beija-a, com ternura, e ambos apanham um autocarro para o centro da cidade.

Chegados à Praça dos Restauradores, Francisco diz para a mãe:

- Olha quem ali está!

De pé, sobre um estrado branco e vermelho, sobressai a imponente figura de Tó Zé, dirigindo o trânsito com perícia, numa das mais nobres zonas da cidade de Lisboa.

D. Luísa fica emocionada, incapaz de conter as lágrimas que lhe escorrem pelo rosto.

- Meu rico filho! Eu tinha toda a razão quando dizia lá na terra que tu, parvo, parvo, não eras… Uma mãe nunca se engana!


© Jorge Francisco Martins de Freitas, 12-03-2021.
Proibida a reprodução sem autorização prévia do autor.

ENTRE PARAGENS

Esta narrativa inédita de Jorge Francisco Martins de Freitas faz parte de um conjunto de contos intitulado ENTRE PARAGENS, do mesmo autor, que vem sendo disponibilizado gratuitamente no Magazine cultural sem fins lucrativos O Leme.

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