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Ocorreu a 6 de fevereiro de 2003



Morte do poeta moçambicano José Craveirinha

A 6 de fevereiro de 2003, ocorre o falecimento do José Craveirinha, considerado o maior poeta moçambicano.

Fonte: Jornal Público, de 06-02-2003

Craveirinha havia nascido em Mafalala, bairro suburbano da então Lourenço Marques, a 28 de maio de 1922, conforme ele próprio indica na sua autobiografia:

«Nasci […] em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Isto por parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai [originário do Algarve], fiquei José. [Nasci] Aonde? Na Av. Do Zihlahla, entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres».

Estudou na escola «Primeiro de Janeiro», pertencente à Maçonaria, tendo seguido a carreira profissional de funcionário público.

Esteve preso entre 1965 e 1969, por fazer parte de uma célula da 4.ª Região Político-Militar da Frelimo.

Preocupou-se sempre em adquirir, autodidaticamente, mais conhecimentos, tendo colaborado, como jornalista, nos periódicos moçambicanos O Brado Africano, Notícias, Tribuna, Notícias da Tarde, Voz de Moçambique, Notícias da Beira, Diário de Moçambique e Voz Africana.

Entre a sua obra, poderemos destacar Xigubo (1964), Cântico a um Dio de Catrane (1966), Karingana Ua Karingana (1974), Cela 1 (1980), Maria (1988), e Haminas (1997).

Foi o primeiro presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos, entre 1982 e 1987.

Foi-lhe atribuído, em 1991, o Prémio Camões, o maior galardão português no campo da Literatura.

Em sua homenagem, a Associação dos Escritores Moçambicanos, em parceria com a Hidroelétrica de Cahora Bassa, instituiu, em 2003, o Prémio José Craveirinha de Literatura.

TESTEMUNHO DO EDITOR D’ O LEME 1

Conheci pessoalmente José Craveirinha, nos anos 70, quando eu era aluno da Universidade Eduardo Mondlane, no Maputo.

O poeta esteve presente numa das aulas, a fim de falar sobre o seu mais recente trabalho, Karingana Ua Karingana, que significa, em changana, Era Uma Vez.

Impressionou-me vivamente a humildade com que se referiu à globalidade da sua obra, limitando-se a afirmar que nada mais fizera que transmitir poeticamente o dia a dia dos moçambicanos, numa época marcada pela luta contra a ocupação colonial.

Em 1991, tive a oportunidade de o voltar a encontrar em Lisboa, passeando no Rossio, quando veio receber a Portugal o Prémio Camões. Estivemos a falar, durante alguns minutos, sentados a uma mesa do Café Nicola. Confessou-me o quanto apreciara a distinção, acabando por desabafar: «no fim da minha vida, sou finalmente rico!».

Os mil contos do prémio (equivalente a cerca de 5.000 euros) não seriam - mesmo na altura - uma imensa riqueza mas, perante a pobreza em que vivia a maior parte das pessoas do seu país, o poeta atribuía àquela verba um elevado valor.

Craveirinha não ficou rico – poucos poetas o conseguem em vida – mas o seu país em particular e a cultura lusófona em geral, ficaram muito mais enriquecidos com a sua obra.

1 Jorge Francisco Martins de Freitas

GRITO NEGRO
in Karingana Ua Karingana

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

Vídeo de José Craveirinha lendo o poema Grito Negro no Festival Internacional de Medellín: