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EFEMÉRIDES

Aconteceu a 25 de fevereiro de 1855



Nascimento do poeta português Cesário Verde

A 25 de fevereiro de 1855, nasce, em Lisboa, o poeta português José Joaquim Cesário Verde.

Biografia

Filho de um lavrador e comerciante, Cesário Verde matricula-se no Curso Superior de Letras mas apenas o frequenta alguns meses, acabando por ficar a tomar conta dos negócios comerciais herdados de seu pai.

Simultaneamente à sua atividade comercial, publica poesias em diversos periódicos, destacando-se os semanários Branco e Negro e O Azeitonense e as revistas O Occidente e Renascença.

Em 1877, começa a ter sintomas de tuberculose, doença que já havia tirado a vida ao seu irmão e à sua irmã. Estas mortes inspiram um de seus principais poemas, Nós, publicado em 1884.

A tuberculose, uma doença que, na altura, tinha poucas hipóteses de cura, ceifa prematuramente, a 19 de Julho de 1886, a vida de Cesário Verde.

No ano seguinte à sua morte, Silva Pinto, seu amigo dos tempos da universidade e um dos principais doutrinadores do realismo-naturalismo, organiza O Livro de Cesário Verde, com a compilação das suas poesias, o qual viria a ser publicado em 1901.

Nos seus poemas, Cesário afasta-se do lirismo tradicional, empregando técnicas impressionistas onde sobressai a dicotomia entre o rebuliço da cidade e a calma que se pode fruir no campo.

Em 1933, a Câmara Municipal de Lisboa homenageia o poeta dando o seu nome a uma rua na Penha de França.

Poemas selecionados

DE TARDE

Naquele «pic-nic» de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas.

EU E ELA

Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;

Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.

Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más ideias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.

Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.

Outras vezes buscando distracção,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiros,
Formando unicamente um coração.

Beatos ou pagãos, vida à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavalheiro de Flaublas...

EU, QUE SOU FEIO

Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso.
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura.
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

«Ela aí vem!» disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, - talvez não o suspeites!-
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarca.
Triste eu saí. Doía-me a cabeça.
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca.

Adorável! Tu muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

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Estamos a reunir, num único local, os artigos sobre Literatura que têm vindo a ser publicados, com regularidade, no âmbito das Efemérides.




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