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EFEMÉRIDES

Aconteceu a 26 de março de 1211



Morte de D. Sancho I, segundo rei de Portugal

A 26 de março de 1211, morre, em Santarém, o rei português D. Sancho I.

Havia nascido a 11 de novembro de 1154, em Coimbra.

Era o quinto filho de D. Afonso Henriques, fundador do Reino de Portugal.

A sua mãe, D. Mafalda de Saboia, pusera-lhe o nome de Martinho, em preito ao santo cujo data de nascimento se celebra nesse dia.

Provavelmente, ninguém hoje falaria dessa criança se não tivesse ocorrido a prematura morte de D. Henrique, o seu irmão mais velho, a quem competia suceder ao pai no trono da jovem nação.

Como o nome que lhe fora atribuído não se enquadrava onomasticamente nos padrões hispânicos, Martinho, então apenas com três anos de idade, é rebatizado como Sancho Afonso.

Em 1169, após o Cerco de Badajoz, D. Afonso Henriques teria ficado gravemente enfermo em resultado de complicações originadas por uma ferida numa perna, causando-lhe um imenso sofrimento que o impedia de governar o reino nas devidas condições.

A 15 de agosto de 1170, o primeiro rei de Portugal arma D. Sancho cavaleiro e institui uma regência do reino partilhada pelos dois únicos filhos que ainda residiam em Portugal: o atrás citado D. Sancho e sua irmã D. Teresa.

Os outros filhos ainda vivos de D. Afonso Henriques - D. Urraca e D. Mafalda - encontravam-se respetivamente nos reinos de Leão e de Aragão. A primeira havia casado com o rei Fernando II de Leão e a segunda tinha estado prometida a Afonso de Aragão. O casamento desta última não chega a concretizar-se, mas ela nunca regressa a Portugal.

D. Afonso Henriques não descartava a possibilidade de entregar o reino à sua filha D. Teresa, pelo que esta, embora integrada numa regência com o seu irmão D. Sancho, passa, a partir de 1173, a executar as funções de uma verdadeira Rainha.

Saliente-se, igualmente, neste período, o forte papel desempenhado por D. Fernando Afonso, filho bastardo de D. Afonso Henriques. Nomeado por este Grão-mestre da Ordem dos Hospitalários, era, ainda, Alferes-mor do seu pai. Ao adquirir um estatuto equivalente ao de infante legítimo, a nobreza da altura, receosa que este pusesse em perigo a entrega do trono a D. Sancho, consegue afastá-lo de uma eventual corrida sucessória.

Em 1174, D. Afonso Henriques aliena-se definitivamente da governação. D. Teresa fica a gerir administrativamente o reino, enquanto o seu irmão D. Sancho se dedica a atividades militares.

Era necessário evitar que D. Teresa casasse com um rei ibérico, porque se o futuro rei D, Sancho não viesse a ter descendência, Portugal poderia vir a ser assimilado, deixando de ser um reino independente.

O casamento de D. Teresa com Filipe, Conde da Flandres, conjugado com o facto de esta ter desistido de qualquer pretensão ao trono de Portugal, evita uma eventual união com outro reino ibérico e deixa D. Sancho como único regente.

O reconhecimento pelo papado de Portugal como reino independente continuava pendente, pelo que havia necessidade de procurar aliados em outros países ibéricos. O casamento de D. Sancho com a infanta Dulce, irmã mais nova do rei Afonso II de Aragão, veio consolidar esse propósito.

Aragão, tradionalmente hostil Castela, foi o primeiro reino ibérico a reconhecer Portugal como estado independente.

Em 1178, perto de Sevilha, o exército de D. Sancho vence forças mouras, evitando que estas entrem em Portugal.

Em 1185, com a morte de seu pai, D. Sancho torna-se o segundo rei de Portugal, passando a ser conhecido como D. Sancho I.

É coroado na Sé de Coimbra, cidade que o seu pai havia designado oficialmente como capital de Portugal.

D. Sancho I desiste de conquistar a Galiza e dedica-se a lutar contra em mouros que ocupam o Sul do atual território português.

Na primavera de 1189, D, Sancho I aproveita a passagem da terceira cruzada por Lisboa para, com o seu auxílio, conquistar Silves, uma importante urbe detentora, na altura, de uma população estimada de 20 000 pessoas. O segundo rei de Portugal ordena a construção do castelo ainda hoje ali existente, com o intuito de precaver uma eventual reconquista desta praça por parte de forças mouriscas. Infelizmente, no ano seguinte, Iacube Almançor cerca Silves, com parte do seu exército, atacando, com a outra parte, Torres Novas. Ambas as urbes caiem, novamente, nas mãos dos mouros.

D. Sancho I vê-se, entretanto, coagido a abandonar as suas conquistas a sul, para defender os territórios do norte das investidas do rei de Leão e Castela.

A partir desta altura, D. Sancho abandona a expansão territorial para sul, dedicando-se à organização política, administrativa e económica do seu reino, assim como ao seu povoamento.

Do ponto de vista político, concede cartas de foral a inúmeras localidades do reino, nomeadamente, entre outras, a Gouveia, Covilhã, Viseu e Bragança.

Economicamente, com o Tesouro Real entretanto acumulado, incentiva a criação de indústrias e apoia comerciantes e mercadores.

Muito preocupado com a falta de população sentida em algumas zonas do seu reino, chama estrangeiros para as povoar, em particular imigrantes oriundos de Flandres e da Borgonha.

Possuidor de uma grande sensibilidade para as Artes, D. Sancho I desde sempre as apoiou.

A Literatura galaico-portuguesa ficou muito enriquecida com inúmeras cantigas de amigo que escreveu.

A título de exemplo, reproduzimos «Ai eu, coitada, como vivo» cuja autoria lhe é atribuída:

Ay eu, coitada, como uyuo
en gram cuydado por meu amigo
que ey alongado!
muyto me tarda
o meu amigo na Guarda!
Ay eu, coitada, como uyuo
en gram desejo por meu amigo
que tarda e non uejo!
muyto me tarda
o meu amigo na Guarda!

Versão em português atual

Ai eu, coitada, como vivo
em grande cuidado por meu amigo
que tenho longe!
Muito me tarda
o meu amigo na Guarda!
Ai eu, coitada, como vivo
com grande desejo por meu amigo
que tarda e não vejo!
Muito me tarda
o meu amigo na Guarda!

Em testamento de 1209, D. Sancho deixa às suas filhas Mafalda, Teresa e Sancha a posse e rendimento de alguns castelos no centro do país, nomeadamente Montemor-o-Velho, Seia e Alenquer.

O seu filho e sucessor, Afonso II, recusa-se cumprir o testamento do pai, alegando que o mesmo contrariava a sua política de centralização régia.

Este assunto é por nós desenvolvido no artigo sobre o terceiro rei de Portugal.

O seu túmulo encontra-se no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, ao lado do jazigo de seu pai.

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